quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Achados da Roça - Espinhela Caída
Segue outro semi-causo-trecho desconexo de estórias capialescas, de que ouvi falar, aqui dentro da matuta cabeça (#XicoXavier). Alguns personagens não tem nomes, porque não achei nada digno para os respectivos. Alguns não tem passado nem futuro, ainda. Nem sei se os terão. Mas como está escrito e não tenho, no momento, ânimo e capacidade para melhorar a bubiça tamanha, posto assim mesmo, porque vergonha é coisa de gente grande, e na pequenência é fácil viver.
"- É que desatinei do avesso, dotô, que nem Sêo Limpo deu jeito na espinhela minha. Declarou que tava caída de vez...trabalho pra maior potência de reza, que ele nem num tinha. Temporão, isso tudo.
Bobo fosse eu, marrava pedra no pescoço e pulava da pinguela na água gelada do córgo da baixada. Assombrei foi só na hora, que calado passei a ficar depois, e o costume vem me voltando. Artes de paciência aprendi , ademais, com mestre de gabarito, nem num foi?
Oxi, que agora me volta o tino, a vergonha é tanta do quase-medo-pavor, nem... Ontem ainda veio, de soslaio, o tino ruim: era competência de falta de oração, creio. Sei que dotô conhece a mãe que tem, e de dívida que tenho com seu povo eu nem num falo, mas assuntando com ela, agora que tá boa dos ares de novo, ela num fazia a arribada da espinhela minha não?
Medo nem num tenho, me volto pra paz lenta natural, mas pro regular da cisma quietar, há de um espargir da erva molhada que Sinhá Tonha - abençoada seja sempre- faz sem igual em poder nesse gerais. Modo que então, voltado no assossego regular, lembrado do valor que humildemente peguei (de matutâncias veladas, de passos longos despressados, mel de jataí tomado no favo tirado pela mão própria que monta esse paioso fedido - vício esquecido-), olho com boa vista pro inimigo, de arriba pra baixo, e largo o passado arriado, sem peso pra caminhar o calendário que me fornecer o Ele. Ão. "
Fosse tal papo findado, o matuto recolhido vê a força nos pés e mãos, a calma confiante de sempre retornando. O incômodo calor entre o pescoço e o peito e a prostração que sentiu nos últimos dias achariam fim nas mãos de Antônia Osório, senhora de João Osório e reconhecidamente eficaz nas artes com ervas naturais e orações sussurradas nos raríssimos indivíduos que dessa graça gozaram. Necessária era a intervenção, dado que nem Sêo Olimpo(Sêo Limpo), ancião benzedor de longa fama, logrou força suficiente para a 'queda de espinhela' do pobre capiau.
Entrou na cabana de sua propriedade, nos arredores do pomar da casa grande, não sem antes bater a botina na soleira e pisar firme com pé direito; galgou 3 ou 4 passos até a santinha de bronze que pendia dum barbante amarrado num realejo velho, encostado numa tábua pregada na parede de sapê, ao lado das panelas empretecidas colocadas do avesso sobre a prateleira; encostou o indicador na cabeça do ícone e levou a mão a testa, fazendo o tríplice sinal de cruz, tal qual fora ensinado pela saudosa mãe. Aquietou-se, então, no canto do cômodo, bateu a poeira da esteira de bambú, tirou o calçado, e deitou o sono tranquilo, sonhando com cheiro de erva de boldo, certo da cura que viria na manhã seguinte.
"
18/11/2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Bonanza - They Call Me Trinity
#desisto-de-formatar-essa-merda-de-post#
Faz um tempinho eu queria falar duma semi-paixão jecal: Faroestes. Não que seja eu um cinéfilo pronto pra análise do contexto histórico-cultural que permeia os westerns. O fato é que trata-se de um gosto não muito antigo, e que ao mesmo tempo tem raízes de infância, quando fuçava em armários de tios e encontrava livrinhos de banca, sobre faroeste, todos com ilustração dos pistoleiros mais procurados nas capas...
Enfim, esse post já faz alguns meses, mas na memória fraca que tenho, é como fosse ontem.
BONANZA - THEY CALL ME TRINITY
Esse fim de semana foi uma grata surpresa . Constato que há em casa de um colega de trabalho(e aluno de Autocad) um tesouro: uma coleção completa de Bonanza!!
Após a aula, e um agradável almoço com a família (esposa, filho de uns 13 anos, e filha formanda em psicologia), meu colega pergunta casualmente se eu gostava dum faroeste. Um maldito "nuuu, gosdimais!" brota da garganta antes que eu desse por mim, como fosse dublagem de enlatados americanos, onde a fala sai antes da boca se mecher.
Tentei, imediatamente, disfarçar a emoção de ver a pilha de filmes(16 ao todo), mas aquele senhor demonstrou tanta satisfação no fato de eu gostar de faroeste, que eu larguei de frescura. Pisco o olho, e lá tou eu jogado no sofá, abusando da hospitalidade da família mais uma vez, vendo Terence Hill e Bud Spencer e suas estripulias em "They Call Me Trinity". Simples, claro e bruto, como deve ser um bom spaghetti western, ou qualquer outra coisa nessa vida.
Na cozinha, a mulher preocupada repreende o marido: "Bem, você já pensou se o menino não teria outras prioridades pro fim de semana dele? Fica insistindo pro coitado ver suas velharias!",
Não me dei ao trabalho de assinalar mesuras, o tiroteio já pipocava...aool.
G. Borges
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Trilha
Trilha
Porque encontra
o desprocurado no miudo das cores
Porque descansa o sono
que antecede a caminhada
Porque respira o som
da carruagem que vai
E pela senda vê que
de baixo
o penhasco não é tão alto
escalado porém
crescentemente nota
que é tanto quanto poderia ser
Estaturazã.
E sente que
o fôlego quase faltante
e na garganta um risco de lã
querendo roubar-lhe vidas
insípidos descoloridos são
desprezados quedam-se
Ante o ar desparticulado
O imaterial viajante
narinas adentro
De grama recém cortada.
O respiro inexistente
E por que prevê sombras da verdade
(oniricamente desdistantes)
É que dormirá o sono
curto e livre
do imberbe ser que
trôpego
recém andou pela prima vez.
26/10/2009
23:46
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Achados da Roça - VISITA
"[...]
-Se acredito?
-Nem.
E nem descreio, modo que em desconfiância natural-constante hoje ando, torto na trilha daquela água. Porque o rio escorre pelo leito que pr'ele foi talhado, e inda sim trata de moldar, afundando - por ânsia própria de chegar ao MAR - a própria sua estrada...
E quando, infante em carro de meus pais, vi o leito de asfalto desaguar no mar pedroso onde agora vivo, consciência não tinha de quanto mal aqui toparia, nem da belezazinha safadamente amoitada em cantos-esquinas, quanto mais de...esse é um mar estranho, mano meu. Muito bem me fez a visita sua, lhe confesso, e num foi só requeijão caseiro e pelo café torrado, mas a lembrança mano, a lembrança[...] "
"[...]-Josino, o engenheirozim dotô, o fi do sêo Antônio, mesmo disse bunito das tais intermitências da vida, do tal gradiente, das diferenças de temperatura jogando calor dum lado pro outro, da esquisita pressão, que carrega liquido e gás pra lá e pra cá, e que só descansa quieta quando quedada em energia... Energia, tem negócio mais estranho?
Eeita, que moda inventei agora! Bubiça tanta. Há de que a fala solta vã, carrega muita sujeira de pensamento que, num fosse o silêncio antecipado tratando de limpar, espalhava toda pela voz e virava verdade na boca ruim. É porque penso bem do silênciozinho matutante, O Que Antecede [...]"
Bão, antes que venham com aqueles emails altamente instrutivos que andei recebendo meses atrás, já aviso que nunca neguei meus 'ídalos' e reafirmo o convite para leitura do primeiro post desse lugar. E reforço que adoraria receber qualquer tipo de comentário, critica, ou xingamento, basta que haja fundamento, fundamento!. Té.
G. Borges
sábado, 3 de outubro de 2009
FALANDO E DIZENDO NADA.
Épocas tensas tiram a liberdade da prosa boa e livre entre compadres. Assim também tiram
a permissão da auto-prosa, do pensamento solto e próprio.
E assim, ainda com partes boas acontecendo, não sobreveio ao matuto em questão a livreza de cabeça necessária para escrever algo novo aqui. Tenho planos de matutâncias guardados, mas nenhum se dispôs a sair dos flashes cerebrais pra virar um textim qualquer. Tenho a matutância pela descoberta do lado filosófico da engenharia, de como a danada anota a vida no meio dos seus 'modelos'. Hei de reclamar do trabalho(que ultimamente não tem me satisfeito como antes), da escola(só pra não perder o costume), do tempo que já foi e era bom. Quero falar da terrinha que não vejo à quase 3 meses(devo bater o recorde), de um vilarejo que não vejo a quase um ano e de coisas que inquietam as camadas adentradas dum jeca. Tem um raio dum post que escrevi início do mês, no notepad ou no oneNote, mas não acho o trem também.
Até lá, treino a paciência. Hora tem que o parafuso pensador gira, descamba a carreira de letras faltantes e liga os flashes isolados de ideias bobas que tenho. Antes disso, me enrolo num silêncio semi-vazio, semi-pensante, espio e observo. Quando um mestre meu me ensinava a técnica, caindo de gargalhadas desmedrosas, eu não gastava tempo discordando: ria também.
"J: É preciso comer bem meu neto, mas guarde um pouco pra brusundanga."
"G:Brusundanga é a sobremesa vô?"
"J:Tsc tsc tsc, não meu filho, é a cachorra da vizinha"
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
DA RAZÃO DE SER
da disciplina online que tenho feito resolvam por aqui aparecer,
elaborei um roteiro pra que não se percam, nem se assustem
com o meu idioma.
Lembro que, antes de estudar engenharia, sou um capiau que ousa escrever o que pensa e o que vê.
Alguns posts aleatórios que colhi(exceto o primeiro de todos) podem resumir um pouco a essência desse lugar. Se tiverem paciência (e tempo) recomendo:
1 - PECADO CAPIAU Primeira tentativa de definir este lugar.
outros:
- Terra Natal - A visão de um matuto.
- O Silêncio de um Jeca - divagações sobre o ser sertanejo.
- Pensamentos em semi-poesia I
- Tentativa de auto-definição
domingo, 6 de setembro de 2009
Sorry Mama, I'm not coming home.
Ah, um pedido público: se alguém conhecer um psicólogo(de preferência (a)) com experiência em tratar de vícios, peço gentilmente me informar. Eu achei que estava imune ao menos ao Twitter, mas agora ele simplesmente se enfileirou na lista de vícios virtuais da jecal pessoa. E acho que agora seja caso para tratamento. Dizem que a confissão é o primeiro passo rumo a cura e, assim, creio ter feito a primeira etapa. Seguem, agora, as matutâncias sobre alguns tipos de criaturas humanas (ou não):
Penso que:
há os que veêm melancolia,
e calam-se, sérios, moribundos
dum silêncio oco e ignóbil
pelo vão que habita suas mentes.
Formam o PrimeiroTipo.
E há os calados da tristeza sincera:
São Os Segundos.
Talvez saibam estes últimos,
um pouco mais do segredo
que habita a vivência
Notam que sua dor é momentânea
que o silêncio é provisório
e preenchido de matutâncias.
um silêncio diferente daquele
vevido pelos do Primeiro Tipo
um pensante silêncio matutal
risonho mesmo em choro
É o não-som dos que sabem
que viver é tão perigoso...
e pulam da ponta da vida
e no meio do buraco sem fim criam asas
(que a autopiedade dos moribundos mentais do primeiro tipo
jamais sonharia em desenhar)
O mundo é dos fortes.
Caricaturas não tem vez nem hora.
O solo bom é dos fortes
De peito-alma.
Que nem sempre fazem pose
Que pouca lábia gastam
Em sua calada labuta.
E assim deve ser.
por G. Borges
sábado, 29 de agosto de 2009
AROU?
Aroma.
num sei se o gosto que guardo
numa gaveta pensante do peito
soante tão largada estava
é teu
mas bem desconfio.
Se da pele saem faíscas sem rumo
pousam sãs e salvas
na calma bruta do ser capialesco
que, de labuta e ócio, ciente fez-se
há de, aqui braços que esperam atentos
sinal pequeno de desamparo
ou luz maior de desejância
lampejos quaisquer
esperam sim, descalmamente
envoltar inteiros teu pequeno ser
neles te aderir de proteções e gosto
deles criar tua cabana
Ao que sento espero
Desatento trilho a senda
Errosa árvore retorcida.
29/08/09 2:10
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
(Do chão torrado-chamuscado vem a cor. Eis o cerrado)
D'O Fogo em Flor
(Traduzido do jequês arcaico)
Teria meu lembrete dela
cor de fruta?
cheiro de furta cor
ah! sim.
Lembro.
acerto-lhe olhos de lado
zanzando juízos
que mais num tenho
mal'espio seu cheiro amarelipê
desembesto em roda pensante.
A cabeça própria-minha sem freio
é desandante:
É rolimã descendo barranco
É carreira de fugitivo de onça
em penumbra do Gerais.
G. Borges 20-08-09 13:54
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
DESABAFO.
A vergonha que tenho, não é das noites de cachaça, nem das besteiras desmedidas ditas - lucidamente ou não. A vergonha mais doída é aquela da cautela e preocupação, das atitutes comedidas, das vezes que me desgastei para não assustar, enfim, da boçais ingenuidades que acabo cometendo, ao tentar colocar minha bruta franqueza jecal de lado.
Coloco sempre uma pedra nas mãos (escondidas às costas esperando para atacar) cada vez que ouço o início de alguma fala preconceituosa ou uma difamação gratuita. Não preciso de esforço pra enxergar o lado positivo das coisas-pessoas, é um negócio estranhamente natural para o jeca que cá escreve. De forma que, quando percebo, muitas vezes o chão já sumiu e tomei 'otro capote num' poço qualquer, e de volta vem a vergonha por tudo que havia sido feito com tanto cuidado para não ''ferir'' a inocência alheia.
Engraçado como algumas pessoas não se satisfazem com as contumazes mentiras que livram a pele, que podem até, em certas situações de 'perigo iminente', render tempo e evitar o 'desandamento do trem todo'. Nesses casos, o que provavelmente aconteceria seria a verdade (ou boa parte dela) acabar aparecendo, mas num momento talvez mais oportuno. A essência (ou o que se defina como o mais próximo da verdade factual) é quase inescondível.
Há aqueles(as), contudo, que decidem usar de pequenas e sistemáticas mentiras para produzir talvez um polimento contínuo em suas imagens pessoais. O que não notam é que dificilmente alguma das desverdades realmente fará o efeito desejado e, se por um lado não causarem nenhum problema para os mentirosos, tampouco surtirão algum efeito realmente positivo nos 'trouxas-que-acreditarem'; quase sempre passarão desapercebidas ou notadas muito vagamente pelos crentes em questão. Se omitidas fossem essas inverdades elogiosas, tudo teria sido muito melhor, e o(a) criador(a) das mentiras não seria menos admirado por não ter cometido todas aquelas proezas, ou por não ter todas aquelas virtudes alardeadas.
Enfim, se há uma utilidade para essas específicas mentiras, é a de - num certo momento- serem descobertas e fazerem o 'crédulo' ouvinte sentir tamanha vergonha e nojo de si, a ponto de aplicar-se um belo banho na alma e aprender alguns anos de lições em poucos dias.
Eu.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
O Livro dos Matos
(Manuel Nardi - O Manuelzão.)
No princípio, havia a dúvida
fim não houve,
desde então.
Fez-se, contudo
o medo ao tempo do meio
O irmão da coragem
alado presságio da pergunta
preciosa e selvagem seiva
imortal questã.
e a palavra nasceu
e do breu, em seguida, a Luz.
G. Borges
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
DES-VERDADES.
Se por ocaso dentro de ti
parte boa ainda houver
mesmo morta por covardes
e pequenas mentiras
use-a de novo, ali
se algum gosto lhe couber.
Que d'eu mesmo
bem sei no breu regenerar-me
Minha ferida honesta é
De juiz-dotô não apeteço fingir-me
Nem guardo o de falar
Sobreponho apenas minha pena
Por tuas tã pequenas
Desnecessárias desverdades.
Desnascidas deveriam-de.
G. Borges
