Parado ali, cerca de metade da hora, olho de pedra preta
travado no sol que deitava descanso, o ancião batia os pensamentos . Sêo Olimpo (Sêo Limpo pros de lá) assim soltava nas baforadas do palheiro ares de coisas sem escrita, enquanto a escura tez transpirava o calor do fogareiro de chá de erva-doce.
Ao seu lado, também agachado de olho duro no horizonte, o matuto
espremia na mão a folha fresca da erva, levando ao nariz o calmante aroma adocicado. Sem saber, lia em parte os pensamentos do velho preto benzedor, quando de soslaio partira o silencio:
--Nem num sabe Sô Limpo, que palavra é tão poca coisa? Gente véve e gente arria causa disso, mas diga o sinhô -que modos diversos tem com as inteligências do chão e do ar-, diga se num é coisa distante daquilo que É, se num é tão fraca de significância a tal da palavra?
--Eita, que disso nem num discuto, que é remendar remendo já feito. Fala tua é pensamento meu, num vê? Arre! té me arrupiei, que nisso eu matutava vendo o breu caindo...
Pois se o pensamento puro surge na mente, no distraído, esse vira olhada, a olhada propaga o mexido do dedo e o gesto do corpo todo, e só então a querência da razão junta letra pra formar o dito, mas a letra é tão pobre que mal faz caricatura do que havia de desenhar.
--Num sei disso Nhô Limpo? Pois que, vez em quando, no largado, me surge a bruta verdade escorrendo da perna até o peito, e se invento fala daquilo, e passo pro Dotôzinho cambiar em escrita, a leitura que me volta é outra arte qualquer, tã longe do cheiro, longe do aceno, quem dirá da olhada...
Ah! o bão é o que não vira letra, o que na mexida de mão se conta, na piscada do olho se pesca. Crê o sinhô, que ouvi fala bunita' trosdia' atrás. Me disse a moça que, modos dela ver, palavra devia valer por mil visões, por mil imagens!? Disse em fala completa de afrescos e poesia, fala bunita, o sinhô vê, mas sem o sal do que É, do fato feito...
--Num se apoquente, filho, que ignorância raleia é com a lida da vida, tal moça carece de respirar o cheiro do mato, ouvir barulho diferenciado da noite, andar a trilha da onça, que só assim saberá a calma do brilho do olho, a força do vento que espalha corpo adentro, depois duma boa carreira de corrida. A cidade é o reino da letra, da escrita, carece de ficar longe do mato, que é onde o fato tem paz, sabedor que não hão de desenhar em papel de pão, sua própria essência, e que, no mais ousado, andará numa olhada, num respiro forte, e só...
G. Borges

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